segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Reflexões minimalistas



Filosoficamente, o minimalismo pode ser entendido como uma extensão do princípio de Occam, que recomenda que não devemos multiplicar as entidades sem necessidade. Se não podemos justificar a necessidade de algo, para quê produzi-lo ou comprá-lo? O princípio de Occam é, sem dúvidas, um apelo à humildade e à simplicidade. Esse princípio não afirma que tudo deve ser reduzido a sua forma mais simples, mas sim que não devemos aumentar a quantidade ou a complexidade das coisas sem uma boa justificativa para isso. Dessa forma, o minimalismo incentiva que priorizemos o essencial ao supérfluo, o simples ao complicado, o importante ao desnecessário.

Há muitos sites em português dedicados ao minimalismo como filosofia e estilo de vida, então quem se interessar pode dar uma olhada. Gostaria de aproveitar para contar uma história pessoal em que coloquei em prática essa filosofia.

Uma das formas em que usei o minimalismo está relacionada com meu gosto pela leitura. Depois de anos comprando em livrarias, cheguei a ter uma coleção de mais de quatrocentos livros, o que acabou se tornando um grande problema de espaço em casa. Até que me dei conta de que não tinha sentido acumular tantos exemplares, comprados de forma um pouco compulsiva, alguns dos quais eu nem sequer tinha a intenção de ler novamente. Então comecei a presentear, doar ou vender todos os livros que não eram especialmente relevantes para mim ou os que já tinha uma cópia de boa qualidade em formato digital, chegando a reduzir o número pela metade. Neste ano, limitarei minha coleção física a cem exemplares. A maioria dos livros que mantive são no formato reduzido ou edição de bolso, o que resolveu satisfatoriamente o problema de espaço, ainda que não se trate apenas de uma questão de espaço. Sou muito apaixonado pela leitura, mas a energia e o tempo são limitados e deve-se focar no que importa. Aliás, falando em leitura, se alguém procura livros em espanhol/português sobre veganismo e filosofia animalista em geral, pode encontrar uma lista clicando aqui.

Talvez alguns leitores estejam pensando "por que está nos contando sobre sua vida pessoal se viemos aqui ler sobre veganismo?" — e com razão. Há alguma relação entre veganismo e minimalismo? Acredito que possamos encontrar alguma. Ser praticante do minimalismo não obriga nem leva ao veganismo, apesar desse ser uma postura muito compatível e convergente àquele.

Algumas pessoas argumentam que a ótica minimalista leva ao veganismo visto que os dados indicam que praticar o veganismo significa consumir menos recursos naturais em comparação à exploração animal, e também implica em menos animais sofrendo e morrendo em razão de nosso consumo. Esse raciocínio faz sentido desde um ponto de vista puramente empírico, mas nem tanto a partir de um ponto de vista moral, porque, como já argumentado em ensaios anteriores, o veganismo é um princípio ético, não um determinado comportamento. Claro que adotar o veganismo obriga, logicamente, a não consumir produtos de origem animal e a não utilizar os animais, mas ainda que a consequência da prática do veganismo fosse o contrário do que é em realidade — ou seja, que sua execução supostamente implicasse em maiores gastos de recursos naturais, ou na morte de mais animais por causa da agricultura — o veganismo continuaria sendo nossa obrigação moral de qualquer maneira.

Nossa primeira obrigação moral é não tratar os seres conscientes como simples meios para nossos fins. Depois disso, também deveríamos nos preocupar em reduzir e evitar os danos que lhes causamos ao viver, que incluem danos acidentais ou indiretos, como a poluição. O princípio de evitar o dano está subordinado ao princípio de respeitar os seres dotados de sensibilidade como pessoas, e não ao contrário. Se não reconhecemos os seres conscientes previamente como pessoas, então nem sequer teríamos racionalmente uma obrigação moral de tentar evitar causar-lhes sofrimento.

Em diversas ocasiões, deixou-se claro que o veganismo é o mínimo — e não o máximo — que podemos fazer pelos animais, no sentido de que o veganismo se trata de uma questão de ética básica. Poderíamos dizer que se trata de um minimalismo moral. Por outro lado, se levarmos em consideração que, no geral, não precisamos usar os animais para viver e desfrutar de saúde e de uma boa qualidade de vida, significa que estamos condicionando os interesses básicos e vitais dos animais para satisfazer nossos caprichos e frivolidades. Isso é claramente contrário ao minimalismo, se de fato entendermos minimalismo como a priorização do essencial frente ao trivial. Entretanto, esse enfoque é, em realidade, mais relacionado com o humanitarismo do que com o veganismo.

Há outra perspectiva minimalista mais compatível com o veganismo baseada na ideia de que se a violência é algo moralmente mau, então devemos evitá-la, e parece claro que, ao incorporar o veganismo, vivemos uma vida menos violenta no que diz respeito aos animais, dado que nos recusamos a tratá-los como objetos e recursos. Há uma relação entre veganismo e não-violência. O veganismo não implica nada além disso, mas se renunciarmos a crença de que os animais são objetos para nosso benefício e reconhecermos que eles são sujeitos de direitos, tal base moral é o fundamento e a motivação para expandir nossa consideração moral a outros âmbitos e comportamentos que também impactam os animais, mesmo que não impliquem em sua utilização.

Com relação ao minimalismo, finalizo a publicação aqui. Desejo a todos um ano feliz e vegano.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Um bebê, um coelho, uma maçã e uma falácia

«Sua falacia logica é»


O autor Harvey Diamond publicou um livro sobre nutrição que fez bastante sucesso nos Estados Unidos e no qual afirma que a dieta natural para o ser humano é constituída por vegetais. Para defender essa ideia, Harvey alegou, entre outros argumentos, que uma criança pequena jamais comeria um coelho por instinto, ao passo que comeria uma maçã. Essa alegoria foi apresentada por alguns ativistas em prol do vegetarianismo e do veganismo. 

Gostaria de fazer três observações sobre esse argumento.

Em primeiro lugar, se colocarmos um filhote de leão na mesma situação, tampouco é provável que ele coma o coelho, dado que seu instinto predatório ainda não está desenvolvido e que se alimenta do leite materno, assim como os demais mamíferos. Certamente, essa situação não prova que o ser humano não seja carnívoro. Sem contar que se no lugar de um coelho colocassem um animal muito menor, como um inseto, não seria de estranhar que a criança o levasse à boca. Além do mais, desde quando o comportamento das crianças representa um critério moral? Propor essa situação hipotética é um desperdício de tempo, que poderia ter sido melhor empregado explicando que podemos viver de maneira saudável com uma dieta vegana bem planejada.

Em segundo lugar, ainda que os seres humanos fossem carnívoros, isso não justificaria moralmente que comêssemos animais. Suponhamos que em lugar de sermos uma espécie de primatas fôssemos uma espécie de felinos - continuaríamos obrigados a não explorar os animais, visto que somos agentes morais. Mesmo sendo carnívoros, poderíamos elaborar uma dieta saudável sem produtos de origem animal, do mesmo modo que milhões de gatos - que são fisiologicamente carnívoros - vivem de forma saudável com uma alimentação vegana.

Em terceiro lugar, devemos evitar os argumentos falaciosos ao defender uma ideia. Um ativista pode argumentar que não se importa que os argumentos sejam corretos, apenas que funcionem para motivar as pessoas a deixarem de explorar os animais. Mas funcionam de fato? Duvido que um argumento que é facilmente refutável funcione em absoluto. Se usamos argumentosfraudulentos, o que estamos mostrando é que não nos importamos com a verdade, somente em convencer os demais, mesmo que seja com artimanhas.

Isso não é honesto. Envenenar fatalmente alguém funciona para conseguir que esse indivíduo deixe de explorar animais? Sem dúvidas, mas esse não parece ser um ato moralmente aceitável. Argumentar é uma maneira de agir, e agir de forma imoral não se justifica com a desculpa de ter a intenção de alcançar um suposto bem.

Antes de utilizar um argumento, deve-se avaliar:

1. Se o argumento se baseia em fatos empiricamente comprovados.

2. Se o argumento é formalmente coerente.

3. Se o argumento que usamos é deontologicamente aceitável.

Mais além, o que argumentamos não deve ser verdadeiro apenas a partir de uma perspectiva empírica, formal e normativa, mas deve ser também eticamente correto. Um exemplo:

[1] X é, com efeito, mais poderoso que Y

[2] Portanto, X pode efetivamente oprimir Y

[3] Logo, é moralmente correto que X oprima Y.

Esse argumento pode ser correto a nível empírico e formal, mas é logicamente errôneo porque um juízo moral não pode ser inferido a partir de uma situação factual. Ter a intenção de inferir um juízo moral a partir de uma situação natural é como tentar justificar o estrangulamento alegando que nossas mãos são naturalmente concebidas para estrangular os outros.

O fato de defender uma causa justa não converte automaticamente em justos os argumentos utilizados para defendê-la. A veracidade de um argumento depende se ele se ajusta à lógica em todos os aspectos [formal, material, normativo], e não se é usado para defender uma boa causa.

Traduzido por Júlia Portela

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A racionalização e o uso de animais


No geral, os seres humanos precisam ter um motivo que justifique o que fazem. Nossa própria natureza racional exige que tenhamos conhecimento dos motivos e objetivos de nossas ações. Embora a ideia de que os animais são seres inferiores seja incutida em nós desde a infância —da mesma forma como somos acostumados a usá-los— mesmo depois de termos incorporado essa mentalidade, buscamos as razões que supostamente justificam o que fazemos. É aqui que entra a racionalização. Nossa consciência moral em particular necessita que haja uma razão que justifique o sofrimento que infligimos a outros. Causar sofrimento gratuito a outrem enoja nosso sentido moral.

Uma pesquisa liderada pelo Dr. Jared Piazza, do departamento de psicologia da Universidade de Lancaster, aponta que os consumidores de carne que adotam racionalizações para a própria conduta sentem-se menos culpados pelo sofrimento que causam aos animais. A pesquisa descobriu que a racionalização de seus hábitos baseia-se principalmente em quatro argumentos que, na língua inglesa, começam com ‘n’: "natural, normal, necessary and nice" [natural, normal, necessário e agradável], abreviados como 4N.

Esses argumentos são bem conhecidos neste blog e assim se resumem:

*Natural: os humanos são onívoros.

*Necessário: comer carne é necessário para obter nutrientes.

*Normal: crescemos comendo animais e a maioria faz o mesmo.

*Agradável: comer carne é delicioso.

O Dr. Piazza explica que a aparição dessas justificativas foi motivada pelas objeções éticas contra o consumo de carne, como uma tentativa de deter o sentimento de culpa e a inevitável reprovação moral por causar sofrimento aos animais sem uma razão que o justifique. Ele também aponta que a adesão às 4N está associada ao desprezo da capacidade mental dos animais e à maior tolerância à desigualdade social na própria sociedade humana.

Esses resultados coincidem com os de outros estudos sobre psicologia socialque revelaram que as pessoas que consomem carne tendem a menosprezar a senciência especificamente dos animais que utilizam como comida, chegando inclusive a negar que sofrem. A mente usa mecanismos para evitar o conflito moral com nossos hábitos. Preferimos pensar que os animais não sentem ou não sofrem porque assim ficamos mais tranquilos e não desafiamos a moralidade de nossa própria conduta.

A pesquisa liderada por Piazza, focada na psicologia moral, foi além do consumo de animais e evidencia como a estratégia das 4N também é aplicada para tentar justificar os demais usos de animais, não somente o consumo de carne. A aplicação das 4N varia de acordo o uso em questão. Em áreas como a de animais silvestres mantidos como animais de estimação, da vestimenta ou da equitação, o argumento da necessidade prevalece muito menos frente ao argumento do prazer. A necessidade de utilizar animais é defendida pela maioria apenas na alimentação e na pesquisa médica.

Há que levar em conta que o erro prévio da racionalização está no fato de ser uma falácia ad hoc, ou seja, um argumento que formulamos após haver executado um comportamento, tentando aparentar que esse argumento é a causa de nossa conduta, quando na realidade trata-se de um argumento surgido posteriormente para tentar justificar o que fazemos. Por exemplo, um indivíduo pode alegar que come animais porque é agradável. Mas essa não é a causa desse hábito. Ele come animais porque foi educado para isso desde criança. O prazer pode ser um complemento, mas não é a causa inicial. Além do fato de que, na verdade, ele nunca tomou a decisão de comer animais, apenas limitou-se a dar continuidade a um hábito adquirido durante a educação e a socialização em que esteve inserido desde sua infância.

A racionalização é um raciocínio ilusório que pretende encontrar um argumento, mas não pretende encontrar a verdade. Quando digo verdade, me refiro à conformidade com a evidência empírica e com os princípios da lógica.

Por exemplo, ainda é dito que comer animais é necessário por razões de saúde, embora as evidências científicas indiquem não o ser. Além disso, a necessidade não justifica moralmente causar sofrimento a outros quando os outros não têm culpa de nossa necessidade. O fato de que precisamos comer não justifica utilizar outros indivíduos como comida.

É importante destacar que o estudo publicado por Piazza e sua equipe também aponta que junto às 4N surge outra racionalização denominada "tratamento humanitário", isto é, a crença de que é correto utilizar animais se o tratamento a eles conferido for relativamente confortável. No âmbito da filosofia animalista, chamamos essa ideia de bem-estarismo. Contudo, essenão é o único argumento que se soma às 4N, visto que o estudo também reconhece que os participantes recorrem à crença de que a vida humana possui um valor moral maior do que a vida animal. Essa posição ideológica, além de enquadrar-se no especismo, pode ser classificada dentro do gradualismo. Ainda assim, faltaria mais um tipo de racionalização, referida no estudo como o argumento da "sustentabilidade", isto é, a ideia de que o uso de animais é mais ecológico do que a opção de não utilizá-los. Isto posto, ao final teríamos um total de 7 argumentos principais. 

O trabalho do Dr. Piazza expõe o papel relevante que o fator ideológico possui na manutenção de preconceitos e hábitos na sociedade. Contrariamente à teoria de que a dominação humana é sobretudo um problema estrutural, a pesquisa acadêmica demonstra a grande importância que o aspecto psicológico possui. A meu ver, isso respalda o posicionamento que defende que o ativismo educacional deve ser o foco principal e prioritário de nossos esforços se o que buscamos é uma mudança profunda em nossa maneira de nos relacionar com os outros animais.

Traduzido por Júlia Portela.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O lado sombrio do animalismo


“Não podemos resolver um problema com a mesma forma de pensar que o provocou.”  — Albert Einstein

Peter Singer e Paola Cavalieri são acadêmicos especialistas em filosofia moral e autores de diversas obras acerca da consideração moral dos animais. Há pouco tempo, publicaram conjuntamente um ensaio intitulado «Os dois lados sombrios da Covid-19», no qual propõem que os mercados úmidos —mercados onde os animais são mortos no local para serem vendidos diretamente como comida— sejam fechados no mundo inteiro, porque há indícios claros de que eles atuam como meios de transmissão de doenças de outros animais aos seres humanos.

Esse é um exemplo, dentre muitos outros, em que vemos animalistas aproveitando a atual crise de coronavírus para pedir o fechamento dos mercados que matam animais porque eles podem ser um foco de infecção para os humanos. Mais além, há animalistas que pedem que deixemos de criar e comer animais como forma de impedir radicalmente a transmissão de zoonoses aos humanos.

Seja qual for a medida sugerida, todas essas propostas têm em comum seu objeto de preocupação: os humanos, não os animais. Todas as mensagens desse gênero pressupõem a crença de que os interesses humanos são mais importantes que os interesses dos animais. Isso promove exatamente o que o artigo de Singer e Cavalieri denuncia como “a suposta superioridade de nossa espécie”. Em outras palavras: estão reforçando o antropocentrismo.

Há animalistas que alegam que conseguir fechar esses mercados seria uma ação positiva para os interesses dos animais. Parecem-me equivocados. Fechá-los não evita que os animais continuem sendo explorados. Se esses mercados são fechados, serão abertos matadouros com controle sanitário em seu lugar. Foi isso que aconteceu na Europa substituíram os mercados públicos de animais por matadouros controlados: substituíram uma forma de exploração animal por outra. Desse modo, os humanos evitam doenças enquanto os animais seguem sendo massacrados. Eles continuam sendo igualmente explorados e mortos. Os humanos ganham; os animais perdem. Nem sequer a partir de um ponto de vista puramente pragmático trata-se de uma medida que ajude os animais.

Tendemos a achar que os animalistas têm a intenção de defender os interesses dos animais frente aos abusos do ser humano. Tendemos a achar que os animalistas têm a intenção de demandar que os animais sejam reconhecidos como membros da comunidade moral, e que nós humanos deixemos de discriminar e sacrificar seus interesses por razões instrumentais. Mas dadas as circunstâncias, parece arriscado continuar com essa suposição.

O que vemos é que os animalistas estão mais preocupados com os humanos que exploram os animais do que com os animais que são vítimas da exploração.

Sugerir que deixemos de praticar a exploração animal porque isso beneficiaria o ser humano propaga uma mensagem antropocêntrica que pressupõe que a vida e o bem-estar dos humanos é mais importante que o de nossas vítimas. Promover uma mentalidade especista –que ignora os interesses dos animais– é justamente o contrário do que consideramos que o animalismo deveria fazer. Se o animalismo não tem como objetivo defender os interesses dos animais, então ele é só outra forma de denominar o antropocentrismo

Se o próprio movimento animalista se dedica a reforçar ainda mais o nosso preconceito antropocêntrico, fortemente arraigado por si só, então já não há esperança de que haja justiça para os animais.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

¿Por que sou vegano?




Sou vegano porque tenho a capacidade de sentir.

Sou vegano porque os outros animais que habitam neste planeta também podem sentir.

Sou vegano porque todos queremos viver livres e desfrutar nossas vidas.

Sou vegano porque posso ser.

Sou vegano porque tenho a capacidade de raciocinar logicamente.

Sou vegano porque posso empatizar com o sentimento dos demais seres sencientes que comigo convivem neste planeta.

Sou vegano porque não me considero superior a nenhum outro animal somente pelo fato de ser humano.

Sou vegano porque não é justo que nos alimentemos às custas dos outros quando podemos evitar.

Sou vegano porque não aceito que a força seja o princípio do direito.

Sou vegano porque não aceito o abuso, a violência, a exploração, a submissão, a dominação, a violação e o assassinato como estilo de vida.

Sou vegano porque quero uma sociedade que se baseie na coexistência e não na opressão.

Sou vegano porque quero um mundo verdadeiramente justo para todas as pessoas e um futuro melhor para as que ainda estão por vir.

Sou vegano porque não quero que destruamos este planeta nem seus habitantes.

Sou vegano porque enxergo além de mim. E vejo um mundo vegano. E gosto do que vejo.



segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Esclarecendo as coisas



Na atual corrente pragmática, ou quinta-colunismo, que inunda o movimento vegano abolicionista com a intenção oculta (e não tão oculta assim) de sabotá-lo de dentro, estão surgindo uma série de atitudes um tanto extravagantes sobre as quais gostaria de comentar. Um dos vários absurdos com que nos deparamos refere-se ao consumo, por um suposto vegano, de produtos de origem animal que não tenham sido diretamente financiados por ele. Isso significa que poderia ir a um restaurante qualquer e comer as sobras de carne, por exemplo, desde que não houvesse uma troca econômica envolvida. Supostamente, assim não se colabora com a exploração animal de forma alguma. Creio que se chame “freeganism” ou algo do gênero, ou seja, veganismo grátis. Sei que alguns autoproclamados veganos também aderem à essa prática sem motivo aparente, ainda que de forma ocasional.

Não se trata apenas de uma simples anedota, mas sim de um erro básico acerca do que se entende realmente por veganismo. Veganismo não é comer os restos de comida deixados em qualquer lugar como um mendigo ou um carniceiro, com todo o respeito a ambos, mas sim um estilo de vida ético baseado no consumo de produtos vegetais para a manutenção da vida individual e da social, que rejeita o uso de qualquer produto de origem animal e a utilização ou sujeição de animais para deles obter qualquer benefício.

Mesmo que não haja colaboração econômica, cometemos um grave erro moral quando nos alimentamos do produto de uma exploração criminosa que implica a escravidão, o maltrato, a tortura e o assassinato cruel de bilhões de inocentes por ano. Não podemos basear nossa vida nem participar em algo tão errôneo. Uma vida vegana caracteriza-se por buscar, praticar e colaborar com uma forma de existência cujo sustento seja obtido de vegetais, na qual tanto os animais humanos quanto os não humanos sejam totalmente respeitados. Claro que os vegetais devem ser respeitados na medida do possível, mas ao passo que os animais são seres inquestionavelmente capazes de sentir, não devendo portanto serem utilizados como coisas, os vegetais não possuem nenhuma capacidade comprovada de sentir; logo, não é moralmente incorreto usá-los como objetos, visto que não destruímos os interesses que supostamente teriam se não carecessem em absoluto dos atributos essenciais para isso, como a consciência ou a senciência.

Qual é o problema em consumir produtos de origem animal que, ainda que fizessem parte do mercado, tenham sido descartados? Há muitas objeções a isso, mas me concentrarei nas éticas:

- O dano está ali. O fato de não estarmos demandando que esse dano continue não é uma desculpa para manter nossa vida com o resultado de um crime. Porque isso significa que estamos aceitando um ato consumado, o assassinato de um animal não humano, em lugar de rejeitá-lo completamente, que é o que se espera de um veganismo coerente e fundamentado. Um vegano não mantém sua vida com produtos de origem animal, sempre que tiver escolha.

- Nossos atos detêm sempre um caráter social. Não podemos ter a intenção de denunciar um abuso tão terrível como a exploração dos animais e, ao mesmo tempo, usar seus produtos. Precisamos buscar, potencializar e empregar alternativas veganas, e não depender do que nos oferece a indústria que baseia seus produtos no sofrimento inimaginável de milhões de animais inocentes. Veganismo é criar uma cultura vegana, não aproveitar nem coletar restos dos mortos.

- O veganismo é um modelo de vida. Devemos passar a imagem de que um estilo de vida completamente vegano é perfeitamente possível e viável, e por isso temos que nos fazer visíveis e reivindicativos tanto quanto possível em nossa vida diária. E isso se faz consumindo produtos de origem vegetal, livres de crueldade com os animais não humanos, e com os humanos também.

Há algum tempo, Matt Ball publicou um manifesto vegano que reconsidera alguns pontos acerca da prática do veganismo. Levando em conta que os veganos vivem em uma sociedade que foi baseada e que ainda se baseia justamente naquilo que rejeitamos, viver uma vida puramente vegana é praticamente impossível para muitos, caso sejam aplicados critérios muito rigorosos (há inúmeros produtos cotidianos ao nosso redor que utilizam ingredientes de origem animal, como o óleo das escadas rolantes e dos elevadores, por exemplo). Então, segundo o sr. Ball, a questão central seria separar os produtos dos subprodutos, afirmando que o veganismo deveria focar-se nos produtos, porque abster-se completamente dos subprodutos seria quase impossível; além disso, esses são derivados dos primeiros, e se os produtos são extintos, também são os subprodutos.

Não vou criticar aqui a atitude prática defendida por Matt Ball, mas apontar que, se mal interpretada, leva a uma total confusão sobre o que entendemos por produto e subproduto. Isso porque pelo ponto de vista econômico, ao comer um pedaço de bife que tenha sido adquirido e descartado por um terceiro, não estaríamos consumindo nem um produto nem um subproduto, já que não pagamos por ele; o bife em questão estaria de fato fora de ambas as categorias. Então por que se preocupar?

Creio que essa ideia é preocupante porque contribui para perpetuar a gravíssima crença errônea de que alguém pode defender os animais ao mesmo tempo que os come, quando temos alternativa. É o erro de acreditar que alguém pode eliminar ou melhorar algo que é intrinsecamente mau, mantendo os hábitos tradicionais que provocam o horror contra o qual os veganos abolicionistas lutam: o uso dos outros animais como recursos econômicos, como escravos. Tem sido justamente o capricho de comer animais, os deixando totalmente fora do nosso âmbito moral, que causou o estabelecimento de uma indústria de exploração animal tão massiva e poderosa como a que existe atualmente. Ser vegano significa criar novos hábitos de alimentação que valem para qualquer momento. Os animais não são alimento, seus restos tampouco. O conceito vegano de comida elimina qualquer coisa que tenha relação com o abuso e o assassinato de animais. E isso vale para sempre. Se alguém não entende assim, não tem as ideias claras. E, pelo bem dos animais e por um mundo vegano, é melhor que as esclareça.

sábado, 4 de outubro de 2008

A espécie superior



Há problemas e injustiças que são universais. Uma delas é a discriminação e a opressão aos demais animais, os que não são humanos, escravizados para nosso benefício. 

Da mesma forma que alguns humanos acreditavam ser a raça superior – que tinham direito a oprimir e subjugar outros humanos que pertenciam à raças supostamente inferiores – o ser humano em geral acredita ser a espécie superior, e esse preconceito arraigado legitima, aos nossos olhos, o direito de explorar os animais de outras espécies que consideramos inferiores. 

Os animais que não pertencem à nossa espécie são tidos como seres inferiores, seres cuja vida não têm valor algum, que são apenas objetos de interesse se podemos extrair deles algum benefício ilegítimo. Eles não são considerados pessoas porque apresentam uma aparência diferente da do ser humano, porque possuem uma inteligência e uma maneira de se relacionar com o mundo diferentes da nossa, e uma forma de comunicarem-se entre eles que nos é estranha. 

Essa é a base do especismo que vivenciamos em nossa sociedade, do pensamento que fundamenta a exploração dos animais não humanos, do que está por trás de todos os crimes institucionalizados cometidos todos os dias em granjas, matadouros, arenas de touros e em outros lugares macabros, cuja única atividade consiste em escravizar e assassinar os outros animais para uso humano. 

Traduzido por Júlia Portela